sexta-feira, 2 de junho de 2017

Há 40 anos, estudantes enfrentavam uma das maiores repressões de sua história



Participantes do III Encontro Nacional dos Estudantes relembram o cerco da polícia e o terror da perseguição

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Ônibus eram parados pela polícia antes de saírem / Acervo Projeto República

O dia era 4 de junho de 1977, quando a ditadura militar ainda dominava o Brasil. Belo Horizonte estava preparada para receber jovens de todo o país para o III Encontro Nacional dos Estudantes (ENE), evento que, junto a outras iniciativas, tentava reconstruir a União Nacional dos Estudantes (UNE), colocada na ilegalidade em 1964 pelo Congresso Nacional. 
Antes mesmo de saírem de suas cidades de origem, os ônibus eram interceptados pela polícia. Estudantes mineiros também eram retidos, impedidos de chegar até o Diretório Acadêmico (DA) da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sede do III ENE, onde outros tantos jovens já estavam cercados. 
"Eu tinha 22 anos, estudava para ser médico. O encontro seria à noite, e ainda à tarde começamos a ter notícias de veículos barrados nas estradas. Já éramos uns 300 estudantes no DA e a pressão ia aumentando. Num certo momento, o Exército e a polícia estavam rodeando todo o prédio, ninguém podia entrar ou sair. Falavam que iam 'descer o cacete'", relata Thomaz Mata Machado, hoje professor do curso de medicina da UFMG. 
Um dos organizadores do III ENE, ele conta sobre o temor daquele dia e o medo das ofensivas militares. "A polícia falava que ia invadir, prender todo mundo. Foi aí que alguém teve a brilhante ideia de usar o telefone do DA e avisar a família sobre o que se passava. Uma fila gigante de gente que queria falar com os pais se formou, e o reitor ameaçava cortar a linha", relembra Thomaz. 
A cada ligação, um parente aparecia na porta do campus. De repente a cidade estava lotada, com passeatas que clamavam pelo fim da repressão em todos os cantos - Avenida Afonso Pena, Igreja São José, Boa Viagem, etc. Na UFMG, os estudantes realizavam uma última assembleia, que tratava do que fazer: ser preso ou espancado. Decidiram, por maioria, enfrentar a prisão, sem saber o que poderia acontecer por trás das grades. "Todo mundo se preparou. Sentamos no pátio, demos as mãos e esperamos a polícia invadir. Veio aquele monte de soldado correndo pra cima", diz Thomaz. 
Os estudantes tentaram negociar, e assim foram levados, em fila indiana, para os ônibus que iriam deixá-los em um local de exposição de animais, o antigo Parque da Gameleira, localizado onde está hoje o Expominas. 
"O caminho até os veículos era um corredor polonês, escuro. Deixamos o DA com a mão na nuca", recorda Ana Rita Trajano, que era tesoureira do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Faculdade de Filosofia e de Ciências Humanas (FAFICH) da UFMG. 
O dia 4 de junho também era o aniversário da militante, que, graças à pressão de sua mãe - que não sabia que ela tinha saído para o ENE -, conseguiu não ser levada para o Departamento de Ordem Política e Social de Minas Gerais (DOPS-MG). "Na Gameleira, eles selecionaram quem era dirigente, presidente de alguma organização e quem não era. Quem não era foi liberado e quem era foi para o DOPS. Eu não fui, mas, junto com as 55 pessoas que foram, fui indiciada pela Lei de Segurança Nacional", declara. 
A ficha que Ana tinha no DOPS, mesmo depois da anistia, em 1979, fez com que ela fosse perseguida em seus empregos posteriores e que, até em 2005, ela não conseguisse emitir novas guias de documentos sem problemas. 
Uma mudança no rumo do Brasil
Apesar dos danos que rondaram os presos do III ENE, o encontro é considerado um sucesso. "O que aconteceu não só influenciou a reconstrução da UNE [1979], como acordou o Brasil para a ditadura. As famílias saíram para as ruas, a repressão estava batendo nos filhos da classe média. Enquanto éramos levados para os ônibus, tinha gente nos aplaudindo. Isso aconteceu no país inteiro", comenta Evilázio Gonzaga, estudante e ator de teatro que também participava do evento no interior do prédio da Medicina.
"A geração desse encontro é vitoriosa. Ela conseguiu libertar o pessoal da luta armada, fortaleceu a esquerda, lançou o ‘Diretas Já’ e derrotou a ditadura. Infelizmente, nossa democracia durou pouco, e a geração de hoje tem uma função semelhante: reconquistá-la. E nós estaremos juntos nisso", ressalta Evilázio. 
CONUNE em BH
Agora, mais uma vez, Belo Horizonte será palco para a organização dos estudantes contra os retrocessos. A capital sediará o 55º Congresso da UNE (Conune), que acontece entre os dias 14 e 18 de junho, e tem como temas centrais a saída do presidente não eleito Michel Temer e a exigência por eleições diretas no país. 
O evento contará com mais de 50 debates e mais de 100 convidados, além de atividades culturais e passeata. Durante o congresso, os estudantes também irão eleger a nova direção e presidência da UNE, que completa 80 anos em 2017. As atividades devem acontecer na UFMG, no Mineirinho, e no centro da cidade.

As inscrições estão abertas e podem ser realizadas por qualquer estudante no site da UNE. Os participantes terão direito a alojamento, alimentação e transporte. 
Edição: Joana Tavares do BrasildeFato

Meu depoimento:
Vivi e senti na pele esta brutal intervenção da ditadura militar, no dia 04 de junho de 1977. Aos 22 anos, estudava o 3º período de Psicologia, na FAFICH, da UFMG. Quando cheguei, na Faculdade de Medicina, policiais já haviam cercado quase todas as entradas. Junto com alguns colegas, nos juntamos a centenas de jovens universitários de BH e de várias partes do país. Debatíamos a situação perigosa, deixando de lado a pauta de reconstrução da UNE. Poucas horas depois, a tropa de choque fechou tudo. "Quem está fora, não entra; quem está dentro, não sai". Pensamos que poderia haver um massacre e morte de estudantes. Podia ser qualquer um de nós. Alguns ou muitos. Ficamos apreensivos quando ouvíamos bombas estourando nas avenidas e ruas próximas. A população se movimentava lá fora. Na negociação com o comando militar, com intervenção da Reitoria da UFMG, foram liberados centenas de estudantes de Minas, ficando lideranças estaduais e nacionais, além de estudantes de outros estados. Um corredor polonês de soldados armados até os dentes foi feito, com saída pelas laterais do Hospital das Clínicas, pela Avenida Ezequiel Dias. Passamos em fila indiana, ouvindo provocações com "xingamentos" dos milicos: subversivo! comunista! viado! putinha! Engolíamos seco. Quando chegamos às ruas, nos organizávamos em alguns grupos, fazendo passeata pela Avenida Afonso Pena, gritando Abaixo a ditadura! De repente, aparece um megafone que comanda a passeata, já passando em frente ao Palácio das Artes. Perto da Praça Sete, a repressão com a cavalaria parte pra cima de nós. Algumas bolinhas de gude providenciais foram jogadas no asfalto. Cavalos e milicos caíam de pernas pro ar, arrancando risadas na população. A ira militar aumentava com as perseguições individuais com os cassetetes em punho no nosso encalço. Corríamos pra dentro da Igreja São José, onde os padres nos protegiam e a religiosidade dos também humanos soldados não ousavam entrar. 
Alguns estudantes se protegiam enrolados em bandeiras nacionais ou em enfrentamentos físicos com as bandeiras esticadas à frente do corpo como nas touradas de Madrid. Os soldados se afastavam ou ficavam paralisados como o diabo - vade retro! - em frente à cruz. Os soldados não batiam, pois ficavam amedrontados com o símbolo nacional a quem deveriam bater continência.  
Depois de algum tempo, retidos dentro da Igreja, o padre observava o ambiente externo. Depois, pedia pra cada um de nós ir pra casa. A barra estava pesada. Alguns de nós se arriscavam a acompanhar os movimentos em volta do Parque da Gameleira, hoje Expominas, pra onde foram levadas nossas lideranças. Não havia notícias, muitas imaginações. Rolavam medos de prisões, torturas, desaparecimentos, mortes. Pouco a pouco, saímos em dupla ou grupos para melhor nos protegermos, indo pra nossas casas ou pra casas de amigos. Vez em quando chegava alguma notícia. A última foi a informação que lideranças do movimento estudantil foram presos, conduzidos para o DOPS - Departamento de Ordem Politica e Social de Minas.
Sem saber o fazer, fomos exaustos pra casa. Difícil dormir. Quando conseguia, acordava gritando e apavorado com pesadelos de perseguição militar, torturas ou situações de ameaças de morte.
Eram dias de pesadelos, acordado ou dormindo.
A luta se fortaleceu. Movimentos diversos foram surgindo com intervenções culturais como no Teatro e Cine Clube do Sindicato dos Bancários, onde eu participava, e outros na FACE, Arquitetura; nos murinhos como o da FAFICH, na rua Carangola, bairro Santo Antônio; no nascimento do Movimento Feminino pela Anistia, sob a doce coordenação da Dona Helena Greco, uma senhora, mãezona de um punhado de "porra-louca" que nem nós.
A ditadura foi sofrendo derrotas diversas, como nas eleições de 1978, quando apoiamos candidaturas populares. As greves pipocaram nas região do ABC paulista. Veio a anistia dos presos políticos, em época da primeira greve nacional dos bancários, em agosto de 1979.
Recebemos como heróis várias lideranças políticas que estavam exiladas como Miguel Arraes, Leonel Brizola e o nosso querido Armando Ziller, ex-presidente do Sindicato dos Bancários de BH e região, ex-deputado estadual cassado, pelo PCB, 1947-1948.
Ao som, da Esperança Equilibrista, de João Bosco  e Aldir Blanc, na voz de Elis Regina, que se tornou o hino da Anistia, fomos nos alimentando de esperança e nos fortalecendo na luta por liberdades democráticas.   
Álbano Silveira Machado, estudante de Psicologia, da FAFICH, UFMG, em BH, em junho de 1977.

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